Memória institucional da filosofia brasileira: o Boletim da ANPOF de 1985

Chegou às minhas mãos um pequeno livreto, com as páginas amareladas e as primeiras folhas já se soltando do resto, bem o tipo de material que me deixa animada: era um exemplar do Boletim da ANPOF, volume 3, número 2, publicado entre abril e junho de 1985 — quando nasci. Imediatamente pensei que este documento histórico precisava ser visto por mais gente e, por isso, resolvi compartilhar essas notas de pesquisa e algumas fotos.

O livreto é um boletim institucional, uma publicação periódica produzida pela ANPOF, no seu segundo ano de existência, para divulgar informações relevantes à sua comunidade. Nesse tipo de documento, que existe até hoje, ainda que em novo formato, circulam comunicados da diretoria, notícias sobre programas de pós-graduação, registros de defesas de teses, anúncios de congressos, publicações e projetos de pesquisa. O objetivo do boletim é manter departamentos, pesquisadores e estudantes informados sobre as atividades da área. Ao reunir esses registros do cotidiano acadêmico, o boletim também documenta processos mais amplos da vida intelectual, tornando-se uma fonte importante para compreender a história recente da filosofia no Brasil.

O Boletim da ANPOF (volume 3, número 2, abril–junho de 1985), um dos primeiros da história da associação, anuncia congressos, cursos e colóquios, apresenta notícias sobre intercâmbio internacional e nacional, divulga comunicados das coordenações de programas e traz uma relação das instituições filiadas à ANPOF. Interessante ter essa referência, pois vemos que neste antigo Boletim há descrição de acordos internacionais, teses, dissertações e projetos de pesquisa. Apesar de o Boletim dos dias de hoje divulgar colóquios, congressos e chamadas de publicações, a prática de divulgar ações como intercâmbios internacionais, acordos institucionais, teses e dissertações perdeu-se ao longo dos anos.

O sumário da edição é o seguinte:

Boletim da ANPOF – Órgão Informativo da Associação Nacional de Pós-Graduação em Filosofia
Volume 3, número 2 (abriljunho de 1985), Campinas, SP

47 Comunicados da diretoria
51 Normalização de publicações
71 Teses e dissertações
76 Projetos de pesquisa
84 Publicações (livros, revistas, artigos)
88 Promoções (congressos, cursos, colóquios)
93 — Notícias internacionais
97 Intercâmbio internacional
100 Intercâmbio nacional
102 Comunicados das coordenadorias
105 Instituições filiadas à ANPOF

O documento, ao mesmo tempo que registra a atividade cotidiana da área, permite acompanhar a organização da filosofia como campo acadêmico no Brasil, por meio dos programas de pós-graduação, das redes de pesquisa, da circulação de pesquisadores e da criação de periódicos.

Por exemplo, logo nas primeiras páginas deste boletim está registrada a decisão de criar os grupos de trabalho da ANPOF, os famosos GTs, que seriam subsidiados pelo CNPq. O texto registra de forma breve um momento que se tornaria estrutural para a organização da pesquisa filosófica no Brasil. A nota diz:

 “Foi decidida a criação de grupos de trabalho da ANPOF a serem subvencionados pelo CNPq. Pesquisadores reconhecidos serão consultados sobre a possibilidade de ajudarem a Diretoria da ANPOF na organização dos primeiros grupos e exercerem o papel de coordenação por um ano. Após esse período, os coordenadores passarão a ser eleitos anualmente. Os critérios de refinanciamento anual dos trabalhos de grupo serão definidos pela Diretoria junto ao CNPq ouvidos os coordenadores pro tempore.

Os Grupos de Trabalho tornaram-se um dos principais espaços de articulação da pesquisa filosófica no país, reunindo pesquisadores de diferentes universidades em torno de agendas comuns. Foi nesse espírito que, décadas depois, que criamos o GT Mulheres na História da Filosofia da ANPOF, que já tive a honra de coordenar em sua estréia no Encontro Nacional. Ver no boletim de 1985 o registro do momento em que essa estrutura institucional começou a ser imaginada é um lembrete poderoso de como as instituições acadêmicas se constroem ao longo do tempo — e de como decisões administrativas aparentemente modestas podem abrir caminhos duradouros para novas comunidades de pesquisa.

Entre as seções do boletim, a que lista teses e dissertações chama a atenção por registrar um momento que hoje reconhecemos como histórico para a filosofia brasileira: a defesa da tese de doutorado de Helena Theodoro. Helena Theodoro — intelectual, professora e escritora dedicada ao estudo da cultura afro-brasileira — é hoje reconhecida como a primeira mulher negra a obter um doutorado em filosofia no Brasil. Sua trajetória intelectual articula filosofia, estudos culturais, religiosidade afro-brasileira e reflexão sobre identidade nacional. Ao longo das décadas seguintes, ela tornou-se uma importante voz pública na valorização das matrizes africanas na cultura brasileira, contribuindo para o diálogo entre filosofia, educação e cultura. Hoje, seu trabalho é frequentemente revisitado por pesquisadores interessados em filosofia africana e afro-brasileira, filosofia da cultura e pensamento social brasileiro, sendo também uma referência para debates contemporâneos sobre raça, identidade e pluralidade cultural.

O boletim registra a defesa de sua tese com o seguinte comunicado:

Instituição: UGF

Autora: Helena Theodoro Lopes

Orientador: Ricardo Vélez Rodrigues

tulo: Implicações para a moral social brasileira do ideal de pessoa humana na cultura negra (negro no espelho)

Banca: Eduardo S. Abranches de Soveral, Ricardo Vélez Rodrigues, Anna Maria Moog Rodrigues, Monique Augras, Carlos Alfredo Hasembalg.

Resumo: Trabalho visando possibilitar algumas reflexões sobre o ideal de pessoa humana na cultura negra e suas implicações com a moral social brasileira. Partindo da metodologia preconizada por Max Scheler, buscou-se tornar visível e nítida a cultura negra, sob uma ótica nova, sem os preconceitos que, normalmente, a distorcem e minimizam. Scheler apresenta o conceito de igualização do espírito humano, que procura mostrar o outro com suas características próprias, identidades e alteridades, em função da formação do homem integral, resultado do amalgamento de diferentes culturas e de diversos ideais.

Mergulhando-se na cultura negra e em suas origens africanas, puderam ser aprofundados conceitos fundamentais como AXÉ, SACRIFÍCIO e MORTE, concluindo-se que a cultura negra possui elementos importantes para o desenvolvimento da nação brasileira, que busca sua identidade e que se caracteriza pela pluralidade étnica e cultural. Assim, com base nas estratégias de sobrevivência e nos valores vividos pelos negros em suas instituições sociais, apresentou-se a cultura negra como uma nova maneira de ser brasileiro, como um resultado da criação cultural de diferentes grupos sociais, que se orgulham de suas raízes e que exteriorizam através de suas festas e rituais a sua capacidade de organização, de originalidade e de criatividade, elementos importantes para o processo de transformação necessário à sociedade brasileira.

O presente trabalho se divide em quatro capítulos, sendo o primeiro uma reflexão sobre a sociedade e cultura brasileiras, situando-se a inserção da cultura negra na sociedade atual. No segundo capítulo procurou-se usar o conceito de AXÉ, básico para os negros, como uma ideologia, já que tem uma função profundamente ligada à vida. No terceiro capítulo, através de um mergulho maior nas raízes africanas, tentou-se mostrar a moral africana e no quarto e último, as conclusões, voltadas para uma nova perspectiva do país em função de uma nova forma de se olhar a cultura negra. (tese defendida em 02/07/1985).

A inclusão dessa defesa no boletim indica que, já naquele momento, a tese de Helena Theodoro era percebida como um trabalho inovador e original. Ao receber esse espaço de destaque entre as notícias da área, o boletim registrava uma pesquisa que abordava, de forma inédita, a relação entre a cultura negra e a moral social brasileira, reconhecendo sua relevância para o debate filosófico no nosso país.

Outra notícia que chama atenção no boletim registra um momento de transição importante na filosofia brasileira: a aposentadoria de Oswaldo Porchat. Porchat foi uma das figuras centrais na institucionalização da filosofia no Brasil no século XX. Formado na Universidade de São Paulo, destacou-se como historiador da filosofia antiga e como um dos responsáveis pela renovação do ensino de filosofia no país. Foi também o fundador do Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência, criado na Universidade Estadual de Campinas, instituição que se tornaria um polo fundamental de pesquisa filosófica e interdisciplinar no Brasil. Décadas mais tarde, Porchat ficaria também conhecido por seu trabalho sobre o ceticismo filosófico e pelo desenvolvimento de uma leitura contemporânea do pirronismo.

A notícia é apresentada assim:

Aposentadoria do Prof. Porchat

O prof. Oswaldo Porchat de Assis Pereira da Silva, fundador e primeiro Coordenador do Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência da UNICAMP, está se aposentando de suas atividades docentes.

Doutor em Filosofia pela Universidade de São Paulo, o prof. Porchat se configura hoje como um dos grandes expoentes da Filosofia no Brasil. Dentre as funções que exerceu, pode-se destacar: Professor Catedrático de Latim (1955), Leitor de Civilização Brasileira na Universidade de Rennes, França (1958-9), Regente da Cadeira de História da Filosofia (1965-9), Chefe do Departamento de Filosofia da USP (1972-4), Professor Titular (designado) de Filosofia Geral da USP (1972-4) e da UNICAMP (1975-1985), Professor Visitante do Departamento de Filosofia da Universidade de Lisboa (1983), Consultor Científico da FAPESP desde 1973, Assessor do CNPq (1978-9), Representante da área de Filosofia junto à CAPES (1979-81). Além disso, o prof. Porchat ministrou conferências em diversas instituições de ensino nacionais e estrangeiras, dentre as quais se destacam: Universidade de São Paulo (USP), Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), Centro de Investigaciones Filosoficas (CIF) de Buenos Aires, Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC/RJ), Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP), Universidade Nova de Lisboa, London School of Economics and Political Science, University of Bristol. Pelos serviços prestados junto ao Governo Francês em prol do intercâmbio cultural Brasil-França, ao longo desses trinta anos de magistério, o prof. Porchat recebeu o título honorífico de Cavaleiro da Ordem das Palmas Acadêmicasem 1984.

O boletim também registra a contratação de Bento Prado Junior, quando já livre-docente na USP, pela UNICAMP. E relata mudanças importantes no campo das revistas filosóficas. Entre as notas publicadas, aparece uma notícia sobre uma nova fase da revista Kriterion, tradicional periódico ligado à Universidade Federal de Minas Gerais.

UFMG – Kriterion, Belo Horizonte, n. 72, jan./jul. 1984.

Foi no dia 11/06 o lançamento da nova Revista Kriterion. A nova revista vai montar um sistema de assinaturas e permutas com revistas filosóficas do Brasil e do Exterior, mantendo sua tradição de 36 anos de publicação. Com o n. 72, começa uma nova fase como Revista de Filosofia.

Outra notícia, desta vez na seção Notícias Internacionais, anuncia a criação da revista Studia Spinozana, um projeto internacional dedicado aos estudos espinosanos que contava com a participação de Marilena Chaui no conselho editorial.

NOTÍCIAS INTERNACIONAIS

Nova revista filosófica: STUDIA SPINOZANA

An International and Interdisciplinary Series.

A professora Marilena Chaui (USP) faz parte do grupo fundador, e pertence ao conselho editorial da publicação. Planeja-se publicar um volume por ano, com cerca de 300 a 400 páginas. Cada volume terá um tema central, embora não se excluam outras contribuições.

Editor geral: Wim Klever (Rotterdam).

Editores Associados: P.-F. Moreau (Paris), Y. Yovel (Jerusalém), M. Walther (Hannover).

Temas previstos para os primeiros volumes:

Vol. 1 (1985): Spinoza’s Philosophy of Society.

Vol. 2 (1986): Spinoza’s Epistemology and Theory of Knowledge.

Vol. 3 (1987): Spinoza and Hobbes.

Vol. 4 (1988): Spinoza’s early writings in their intellectual and social context.

Folhear esse boletim nos permite perceber que temas que frequentemente tratamos como recentes já estavam presentes no debate filosófico brasileiro. Entre eles aparecem discussões sobre inteligência artificial e sobre a filosofia nas Américas. Na seção dedicada a eventos acadêmicos, por exemplo, o boletim registra um ciclo de palestras organizado pelo programa de pós-graduação em filosofia da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, no qual foram apresentados temas como “A Filosofia e os Computadores”, “O Projeto da Inteligência Artificial” e “Mentes, Cérebro e Programas”. Em outra nota, anuncia-se a realização do XI Congresso Interamericano de Filosofia, dedicado ao tema “América e sua expressão filosófica”, indicando um interesse já consolidado em refletir sobre a produção filosófica no contexto das Américas.

Ciclo de Palestras – PUC/RJ

O Curso de Pós-Graduação em Filosofia da PUC/RJ, em conjunto com o Instituto de Lógica e Filosofia da Linguagem, deu continuidade ao ciclo de palestras que vem realizando desde 1980. Entre março e junho foram realizadas as seguintes palestras:

Prof. John Corcoran, Counterexamples to rules of distribution” (02/04/85).

Prof. A. Woodfield, A Filosofia e os Computadores” (09/04/85);

O Projeto da Inteligência Artificial” (11/04/85);

“Mentes, Cérebro e Programas” (16/04/85); “Conteúdo Intencional” (23/04/85).

O boletim registra também a realização do XI Congresso Interamericano de Filosofia, dedicado ao tema da expressão filosófica das Américas.

XI Congresso Interamericano de Filosofia

Realizar-se-á de 10 a 15 de novembro de 1985, na cidade de Guadalajara (México), o XI Congresso Interamericano de Filosofia. O Congresso é promovido pela Sociedade Interamericana de Filosofia, que congrega especialistas do Canadá, Estados Unidos, América Latina e Caribe. Tema principal: “América e sua expressão filosófica”.

Por fim, o boletim traz um texto dedicado à normalização de publicações, lembrando o enorme trabalho material envolvido na edição de revistas científicas nos anos 80. Muito antes dos editores de textos digitais, dos sistemas de submissão online e das plataformas de periódicos acadêmicos, a preparação de um artigo exigia um cuidadoso processo de datilografia, revisão manual e padronização tipográfica. O artigo presente no boletim procura orientar autores sobre como preparar seus textos para publicação, especificando normas de formatação, uso de citações, referências bibliográficas e organização do manuscrito. Ler essas instruções é também uma pequena viagem ao universo editorial da época. O texto apresenta os sinais gráficos de padronização utilizados na correção de provas e na preparação de originais, marcas que indicavam inserções, supressões, deslocamentos e ajustes tipográficos no texto. Esses sinais faziam parte do repertório técnico de autores, revisores e editores e precisavam ser de conhecimento comum para que o processo de edição funcionasse de maneira eficiente. Publicá-los no boletim tinha justamente essa função pedagógica e prática: difundir entre os pesquisadores as convenções de correção e formatação adotadas pelas revistas, contribuindo para padronizar os procedimentos editoriais e facilitar o trabalho coletivo de preparação dos artigos.

E me desculpem os nossos mais velhos, mas rever hoje um boletim como esse é uma experiência quase arqueológica. É que em suas páginas aparecem acontecimentos que marcariam a filosofia brasileira em sua pluralidade: a criação dos grupos de trabalho da ANPOF, a defesa de uma tese pioneira de uma mulher negra filósofa, a aposentadoria de um membro de uma geração que ajudou a construir nossas instituições, novos projetos editoriais e redes internacionais de pesquisa. Também se percebe que temas que hoje parecem recentes — como a inteligência artificial ou a reflexão sobre a filosofia nas Américas — já estavam presentes no debate há quarenta anos.

Deixo um apelo para que o conjunto de publicações do Boletim da ANPOF seja resgatado em sua totalidade e disponibilizado ao público, pois constitui uma fonte histórica valiosa para compreender a formação da filosofia acadêmica no Brasil. Na década de 1980, quando a comunicação entre pesquisadores dependia sobretudo de cartas, circulares impressas e encontros presenciais, o boletim funcionava como um meio central de circulação de informações entre departamentos e programas de pós-graduação, registrando defesas de teses, projetos de pesquisa, congressos, intercâmbios, criação de revistas e decisões institucionais da associação.

Esses registros, produzidos com finalidade informativa, permitem hoje reconstruir redes de colaboração, trajetórias intelectuais e processos de institucionalização da disciplina. Preservar esse tipo de memória institucional nos ajuda a compreender como uma comunidade acadêmica se organiza e se transforma ao longo do tempo. Finalmente, é importante reconhecer que a Associação Nacional de Pós-Graduação em Filosofia mantém o boletim em funcionamento até hoje, preservando um espaço de comunicação e memória coletiva da área. Resta apenas desejar e torcer para que essa tradição continue para que as próximas gerações possam acompanhar e registrar os caminhos da filosofia no Brasil.

Rio de Janeiro, 13 de março de 2026.

Nastassja Pugliese

 Declaração Universal dos Direitos Humanos

Adotada e proclamada pela Assembleia Geral das Nações Unidas (resolução 217 A III) em 10 de dezembro de 1948.

Artigo 27 – Direito à ciência

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